O cineasta e pesquisador argentino Octávio Gelino morreu
na última segunda feira. Diretor da obra-prima ‘A hora dos fornos’, seu
maior legado foi a formação de uma vanguarda cinematográfica militante
no final da década de 1960
Passou
praticamente em branco entre os jornais da imprensa burguesa a notícia
da morte do importante cineasta argentino Octávio Gelino, que, ao lado
de Fernando Solanas, concebeu o documentário A hora dos fornos, uma das obras-primas do cinema político latino-americano e mundial.
Gelino estava com 77 anos e faleceu na última segunda-feira (1/10) em Buenos Aires, vítima de um câncer.
Nascido
em 1935, na Espanha, a família de
Gelino emigrou para a Argentina na
década de 1950. Após o golpe militar em 1966, Octávio Gelino ao lado de
Fernando Solanas se envolveram nas filmagens clandestinas de um longo
documentário que viria a se tornar o filme La hora de los hornos (no Brasil, A hora dos fornos).
O
longa-metragem, que defendia a luta armada contra das ditaduras
militares latino-americanas, foi exibido pela primeira vez em 1968, no
Festival de Pesaro, na Itália, e obteve uma enorme repercussão em um
momento em que a população de diversos países se levantava contra a
ofensiva direitista do imperialismo. Nos Estados Unidos as mobilizações
se deram contra a Guerra do Vietnã; na Europa, em diferentes países,
como a Itália e Alemanha Ocidental, grupos revolucionários surgiram em
luta contra os governos de direita. Na América Latina, foi um momento
também de intensa atividade política contra as ditaduras militares.
Nesse sentido, A hora dos fornos
surgia como um manifesto contundente em defesa da luta
anti-imperialista no mundo, uma expressão intelectual importante daquele
enorme movimento político internacional.
Juntamente com o documentário, os cineastas lançaram na ocasião o Manifesto por um terceiro cinema, que se tornou
extremamente popular, se posicionando contra o cinema comercial e
afirmando a necessidade de uma posição ativa de luta contra o
imperialismo. No texto eles afirmavam: “Toda a tentativa de contestação,
mesmo violenta, que não sirva para mobilizar, agitar, politizar de
qualquer maneira as camadas do povo, para armá-las racional e
sensivelmente para a luta, longe de incomodar o sistema é por este
aceito com indiferença, chegando, por vezes, a convir-lhe. A virulência,
o não-conformismo, a simples revolta, a insatisfação, são produtos que
se adéquam ao mercado de compra e venda capitalista, são objetos de
consumo”.
Dito
isso, eles elaboravam uma tese sobre a forma como o cinema era
controlado pelo imperialismo através de modelos formais: “O modelo da
obra de arte perfeita, do filme perfeito, executado segundo as regras
impostas pela cultura burguesa, pelos seus teóricos e críticos, serviu,
nos países dependentes, para inibir o cineasta, sobretudo quando ele
quis adaptar modelos idênticos a uma realidade que não lhe oferecia nem a
cultura, nem a técnica, nem os elementos mais sumários para aí chegar. A
cultura da metrópole guardava os segredos milenários que tinham dado
origem aos seus modelos. A transposição destes para a realidade
neocolonial revelou-se um mecanismo de alienação, uma vez que o artista
do país dependente não podia assimilar, em alguns anos, os segredos de
uma cultura e de uma sociedade elaboradas durante séculos, através de
circunstâncias históricas completamente diferentes”.
Depois de analisarem o que seria o primeiro cinema, que seguia os modelos de Hollywood, e o segundo cinema, ligado ao movimento de ruptura do cinema autoral; eles teorizam sobre o terceiro cinema,
que seria o cinema militante: “O Terceiro Cinema (não confundir com o
cinema do Terceiro Mundo) é o cinema de agitação política. É o cinema
militante de luta anticapitalista e anti-imperialista. Corresponde ao
período histórico da descolonização e da luta armada contra o
imperialismo. Será um cinema completamente liberto dos modelos estéticos
de Hollywood e das vanguardas artísticas burguesas, a maior parte das
vezes exibido em circuitos paralelos ou mesmo clandestinos. É um cinema
sem normas estéticas ou técnicas, em vias de formação não só nos países
da América Latina, da África e da Ásia, mas também nos países europeus,
em que os cineastas revolucionários e o movimento popular organizado
lutam pela transformação da sociedade e pela construção do socialismo.
Juntamente com o manifesto e A hora dos fornos,
que era o exemplo prático daquelas ideias, Getino e Solanas fundaram um
grupo internacional de cinema militante, o Grupo Cine Liberação, cuja
proposta era criar um movimento que passasse por fora dos circuitos
tradicionais do cinema comercial, amparando-se nos sindicatos,
universidades, associações de bairro e organizações próprias do
movimento operário e popular para a veiculação das obras.
A hora dos fornos, como se pode imaginar, foi criado de uma forma totalmente
independente, com baixíssimo custo de produção e uma equipe reduzida,
que às vezes se resumia apenas a Getino e Solana, portando apenas uma
câmera e um gravador.
Em 1969, em parceria com outros realizadores, Getino produziu outro documentário militante, Los caminos de la liberación.
Getino
era adepto do peronismo, movimento nacionalista burguês de orientação
democrática, e foi autor, nos momentos finais da ditadura, de dois
documentários em defesa de Péron. Eram eles Perón: La revolución justicialista e Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder, ambos lançados em 1971.
Quando
há a reabertura e Perón ascende à presidência, Getino ingressa também
no governo, nomeado ao posto de chefe da censura cinematográfica. Uma
das decisões dele foi liberar todos os filmes anteriormente proibidos
pela ditadura.
Com
a derrubada do governo peronista em 1973, com o novo golpe militar,
Getino parte para o exílio. Vive no Peru e posteriormente no México.
Nesses anos ele redireciona o sentido de sua atividade e se volta à
pesquisa das condições econômicas e sociais do cinema latino-americano.
Com
a queda da ditadura argentina, Getino retorna ao país, onde assume a
direção do Instituto Nacional de Cinematografia, participando de filmes e
publicando livros teóricos sobre temas técnicos de cinema, ligados a
problemas econômicos e às novas tecnologias.