quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Novo documentário resgatará a importância de Mercedes Sosa

 
 Com estreia marcada para 2013, o documentário La voz de Latinoamerica busca contar a história de uma das expoentes maiores da música moderna latino-americana a partir do depoimento de dezenas de músicos que tomaram parte no movimento

Na década de 1960, Mercedes Sosa, em parceria com outros músicos argentinos, escreveu o Manifesto da Nueva Cancion, texto considerado hoje uma das obras fundamentais da cultura latino-americana contemporânea.  No Manifesto, aqueles músicos elaboravam um programa musical em defesa dos ritmos populares de seus países, e defendiam uma música política, de protesto, vinculada à luta dos povos do continente contra as ditaduras militares latino-americanas. Aquela proposta, em um curto período de tempo popularizou-se em um amplo movimento musical internacional que manifestou-se na Argentina, em Cuba, no Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia, Uruguai e Peru, entre outros.

Mercedes Sosa foi um dos expoentes, dentro e fora da Argentina, desse enorme movimento internacional da nova música latino-americana, o mesmo movimento que levou ao surgimento da MPB no Brasil.

É essa história pessoal da cantora, associada ao movimento musical mais amplo que acontecia, que pretende contar o documentário La voz de Latinoamerica, que está agora em fase de pós-produção, tem estreia programada para o segundo semestre de 2013.
O documentário é dirigido pelo cineasta Rodrigo Vila, em parceria com o único filho de Mercedes, Fabian Matus.

O documentário conta toda a trajetória de Mercedes Sosa a partir de imagens documentais e entrevistas com dezenas de artistas que foram próximos da cantora, que foram influenciados por ela ou que tomaram parte naquele movimento. Entre os cantores que dão depoimentos sobre Sosa, estão Joan Baez, Chico Buarque, Julio Bocca, Simon Peres, Daniel Baremboin, David Byrne, Caetano Veloso, Sting e Shakira, entre outros.

Sobre o filme, comentou Fabian Matus: “Mercedes Sosa é minha mãe e será sempre a cantora de todos. Foi a militante e a artista; e ao mesmo tempo a que acariciava minha cabeça e meus sonhos, a que acompanhava meus medos, a que alimentou minha fantasia, a que estimulou meu trabalho. Essas duas mulheres, a pública e a privada, a figura internacional e minha mãe da intimidade, estiveram sempre juntas. É desse lugar privilegiado, pessoal e afetivo, que eu tratei de contar essa história”.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Morreu o poeta peruano Antônio Cisneros

Membro da Geração de 1960, dos poetas latino-americanos, Cisneros foi um dos mais importantes nomes da literatura peruana das últimas décadas

No último sábado morreu o poeta peruano Antônio Cisneros, um dos nomes mais destacados da Geração de 1960 da poesia peruana, da qual também faziam parte nomes como Rodolfo Hinostroza e Javier Heraud, entre outros.

Cisneros estava com 69 anos e morreu vítima de um câncer de pulmão. Além de poeta, ele trabalhou também como professor e jornalista.

Nascido em 1942, ele cedo começou a escrever em verso e prosa. Sua poesia se caracterizava pela descrição, com grande lirismo e, por vezes, com notas humorísticas e irônicas, o cotidiano da vida da população de Lima. Seu primeiro livro de versos foi publicado ainda em seus tempos de estudante universitário, em 1961, Destierro, e já em 1962 publicou também David.

Ligado à esquerda universitária peruana e aluno da Pontifica Universidade Católica, Cisneros publicou na época um documento expressando sua simpatia e apoio à Revolução Cubana, iniciativa que iniciou um processo de perseguição política na Universidade e o levou a abandonar seu curso, matriculando-se em seguida na Universidade de São Marcos.

O poeta tornou-se nacionalmente conhecido no Peru, como um dos importantes expoentes da Geração de 1960, com o poema Canto ceremonial contra un oso hormiguero, de 1968, que lhe rendeu o Prêmio Casa de Las Americas.

Depois de concluir os estudos, e durante a ditadura peruana, ele mudou-se para a Inglaterra, durante o movimento cultural e intelectual do chamado swinging London, termo que caracteriza uma época de fermentação artística, na música, artes plásticas e no cinema londrino.

O período mais importante de sua atividade poética deu-se entre as décadas de 1960 e 1970, durante a crise política peruana que se desenvolve antes de depois do golpe militar de 1968.
A obra de Cisneros combinava temas políticos e cotidianos, sempre ligado ao movimento de esquerda.

Depois da reabertura política, em 1975, Cisneros afastou-se da esquerda peruana, converteu-se ao catolicismo e tornou-se um dos poetas oficiais do país, acumulando dezenas de prêmios, medalhas e cargos honoríficos nas quatro décadas seguintes. Sua nova crença religiosa iria aparecer em seus livros seguintes, como no El Libro de Dios y de los húngaros, de 1978.

Depois da reabertura ele atuou principalmente como jornalista cultural, em jornais como o semanário Marka, em 1976; o jornal satírico Monos e Monadas, em 1978, e os suplementos literários El Caballo Rojo, em 1980; 30 días, em 1984; ou Sí, em 1987.

Cisneros foi ainda professor, lecionando em universidades na Inglaterra e na França. Seu câncer foi diagnosticado no final do ano passado e a doença evoluiu rapidamente desde então. O escritor foi enterrado no domingo em Lima, sua cidade natal.

domingo, 7 de outubro de 2012

Lançado nessa semana novo livro sobre Vladimir Herzog

Além de reconstituir as circunstâncias em torno do assassinato do jornalista pela ditadura militar, a biografia resgata um episódio obscuro de sua infância, quando a família Herzog atravessou a Europa fugindo do nazismo


Ocorreu na última quinta-feira (3) o lançamento da biografia As duas guerras de Vlado Herzog, escrita pelo jornalista Audálio Dantas, que na ocasião da morte de Herzog era o presidente do Sindicato dos Jornalistas.


O objetivo do autor era escrever uma reportagem reconstituindo as circunstâncias e o momento político em que Herzog foi assassinado, trabalho que resultou na presente biografia.

O livro é dividido em duas partes distintas, destacando um outro aspecto da vida do jornalista praticamente desconhecido do grande público. Dantas volta à infância do jornalista e mostra a família Herzog, de origem iugoslava e judia, que durante a Segunda Guerra teve de fugir de sua cidade natal, Banja Luka, para a Itália, e de lá partiram para a América. Nem todos os membros da família, porém, puderam empreender juntos a fuga, e os que ficaram para trás acabaram exterminados nos campos de concentração. Essa teria sido a “primeira guerra” em que o futuro jornalista se envolvera ainda na infância. A “outra guerra” foi, obviamente, a ditadura militar brasileira.

A parte principal da biografia destaca justamente a atividade de Herzog durante a ditadura: “Este livro é a tentativa de reconstituição de um tempo ruim. Centrado nos tumultuados dias de outubro de 1975, quando a fúria dos agentes do lado mais escuro da ditadura militar golpeou a fundo a categoria dos jornalistas, ele mostra os acontecimentos do ponto de vista de quem os viveu intensamente. Eu, por exemplo, que não tenho dúvida de que aqueles foram os dias mais angustiantes da minha vida”.

Para contar essa história, apresentar um quadro vivo da atuação da ditadura no período e reconstituir a crise política da época, Audálio Dantas colheu depoimentos de mais de cinquenta jornalistas que também viveram processos de perseguição durante a ditadura e narraram suas experiências com o DOI-Codi.

Mais do que apenas narrar os fatos que levaram à morte de Herzog, Dantas busca em seu livro enfatizar o significado político e histórico que o acontecimento assumiu em meio a um enorme movimento de luta contra a ditadura.

Conforme Dantas comentou, “Vlado foi o 12º jornalista sequestrado naquele período. E denunciamos um a um, desde o primeiro. Claro que com ele foi mais grave, porque resultou em morte. No dia seguinte à notícia – quando ainda não havia sido divulgada a foto dele morto na prisão – emitimos nota responsabilizando o Estado pela morte. Dois pontos foram fundamentais para a repercussão dessa nota: o primeiro foi que a responsabilidade pela morte do preso que estava em poder das autoridades era, sim, do Estado, independentemente das circunstâncias dessa morte; o segundo foi que havia um convite para o velório do Vlado, o que não era comum. Na época, as pessoas que morriam vítimas de confrontos policiais, suicídio etc. eram enterradas sem barulho. Vlado foi a primeira vítima da ditadura a não ser enterrada em silêncio”.

sábado, 6 de outubro de 2012

Municipal paulista apresenta duas óperas alemãs em sua programação de outubro

Dando continuidade à sua temporada de óperas, o teatro traz um programa duplo este mês, apresentando ‘Violanta’, de Korngold e ‘Uma Tragédia Florentina’, de Zemlinsky

Cena de Violanta, da montagem que será encenada no Municipal.
Depois de ter levado ao palco em agosto uma montagem grandiosa ópera O crepúsculo dos deuses, do alemão Richard Wagner, o Teatro Municipal de São Paulo apresenta agora em outubro um programa duplo, trazendo outras duas óperas do repertório alemão. São elas, Violanta, concebida em 1916 pelo compositor Erich Wolfgang Korngold e Uma Tragédia Florentina, composta em 1917 por Alexander Von Zemlinsky.

A opção do Municipal poderia parecer inusitada, mas na realidade segue uma tradição, pois ambas as óperas vem sendo apresentadas juntas nas temporadas internacionais há décadas.
Isso se deve tanto pelo tempo reduzido de duração de cada uma delas – Violanta com cerca de 1h10 e Uma Tragédia Florentina com 50 minutos – quanto pelas afinidades que as duas obras possuem entre si e a proximidade musical Korngold e Zemlinsky, que eram contemporâneos e de origem austríaca.

Os dois espetáculos são ambientados na Itália renascentista (Violanta se passa na Veneza do século XV e Uma Tragédia Florentina na Florença do século XVI.) e apresentam um enredo superficialmente similar, com traições e triângulos amorosos ao centro da trama. Os heróis das duas peças têm inclusive o mesmo nome, Simone, que são, em ambas as histórias, maridos traídos.

Do ponto de vista do estilo das duas criações há também o fato de Korngold ter recebido grande influência musical de Zemlinsky, este último, 26 anos mais velho. Essa influência foi particularmente forte na juventude de Korngold, que foi aluno de Zemlinsky e concebeu Violanta quando tinha apenas 17 anos.

Por trás das similaridades, no entanto, há duas obras distintas, daí o interesse em apresentá-las juntas. Ao pé que Violanta é uma tragédia, Uma tragédia florentina é uma sátira social, de maneira que, juntas, fazem um vivo contraste e apresentam duas faces distintas da ópera do chamado neorromantismo alemão. 

Violanta 

Com um libreto original escrito pelo poeta austríaco Hans Müller, essa ópera é uma tragédia bastante tradicional, ao estilo do romantismo. Simone é um comandante militar da República de Veneza, marido da bela Violanta. Ele jurou vingança contra Alfonso, príncipe da República, após a irmã de Violanta, Nerina ter se suicidado depois de ter sido seduzida e desprezada pelo galanteador Alfonso. A ópera será a história da execução dessa vingança.
Violanta, para vingar-se, elabora um plano para seduzir Alfonso, levá-lo aos seus aposentos durante a celebração do carnaval veneziano. Lá o príncipe seria morto por Simone, que estaria escondido no quarto. O plano, no entanto, sai do controle de sua idealizadora. Violanta apaixona-se por Alfonso e tenta então evitar que a vingança seja consumada. Ao final do espetáculo, porém, Simone descobre o romance, salta sobre Alfonso, mas acaba assassinando Violanta, que se coloca entre os dois. O desfecho da obra mostra a condenação moral da heroína, que se deixa levar pelas emoções passando por cima de seus deveres morais para com a irmã e o marido.

Uma tragédia florentina

O libreto de Uma tragédia florentina foi composto a partir de um conto homônimo do britânico Oscar Wilde. A ópera, apesar do que sugere o título, é na realidade uma sátira. Ela começa quando um rico comerciante florentino de tecidos, Simone, regressa de viagem e encontra, em casa, sua esposa, Bianca, com um desconhecido, que se apresenta como um cliente, príncipe Guido Bardi, filho do monarca de Florença. Bardi era na realidade amante de Bianca. Nas cenas seguintes a obra revela toda a subserviência do burguês ao aristocrata quando esse se mostra disposto a comprar tudo o que havia na casa, pinturas, tapetes, móveis e inclusive a esposa dele. Simone declina, diz que Bianca não era digna de um príncipe. A trama segue nesse ritmo até que o ingênuo Simone descobre o caso entre os dois e desafia Bardi para um duelo. No embate final entre eles, Simone desarma Bardi e o estrangula no chão. Bianca que torcia entusiasticamente, aos berros, para que Bardi matasse o marido, assim que vê a cena se coloca ao lado de Simone com declarações de amor calorosas. Simone também abraça calorosamente a mulher, apaixonado. A peça expõe ao ridículo a hipocrisia das relações amorosas burguesas e o interesse social que reside por trás das aparências.

A montagem do Municipal

A montagem de Violanta e Uma tragédia florentina que chega agora no Municipal foram dirigidas pelo dramaturgo Felipe Hirsch e seus colaboradores, Daniela Thomas e Felipe Tassara. O mesmo grupo já dirigiu a montagem de duas outras óperas apresentadas no Municipal, O Castelo do Barba Azul (2006) e Rigoletto (2011). A música do espetáculo ficará a cargo da Orquestra Sinfônica Municipal, (com participação do Coral Lírico em Violanta) e sob a regência de Luís Gustavo Petri, que também assina a direção musical.
As óperas serão apresentadas juntas ao longo do mês de outubro, nos dias 12, 13, 16, 18, 20 e 21.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Mostra celebra centenário da morte de August Strindberg

 
O ciclo apresenta leituras dramáticas e adaptações das peças do dramaturgo sueco, além de espetáculos livremente baseados em sua biografia
Este ano se completa o centenário da morte do escritor sueco August Strindberg, romancista e dramaturgo, morto em maio de 1912.

Marcando a data, começa esse mês e se estende até novembro uma mostra teatral que leva aos palcos paulistas espetáculos inspirados pela vida e obra do dramaturgo.

Na mostra serão apresentadas quatro adaptações de peças de Strindberg, os dramas Dança da morte e Credores, a comédia Brincando com fogo, e a peça curta A mais forte.

Além dessas peças, estão presentes outros trabalhos inspirados na própria biografia do escritor. O Livro da Grande Desordem e da Infinita Coerência é uma peça performática criada a partir de fragmentos da peça Um sonho, e do romance autobriográfico Inferno de August Strindberg.

A noite das tríbades é uma adaptação inédita no Brasil do texto do dramaturgo Per Olov Enquist, sobre a vida e a obra de Strindberg, apresentadas a partir de um diálogo entre o escritor e sua esposa em um teatro abandonado enquanto tentam ensaiar a peça A mais forte.

O espetáculo Strindbergman é uma produção francesa que busca estabelecer uma aproximação entre o teatro de Strindberg e o cinema de Ingmar Bergman, ambos suecos. A peça une a encenação de A mais forte com imagens do filme Persona, de Bergman.
Outros eventos que terão lugar na mostra é a leitura dramática das peças O sonho e Dança da morte, e a realização de ensaios abertos da peça Credores.

Breve retrato de Strindberg

August Strindberg foi um dos mais importantes dramaturgos do final do século XIX, iniciador do teatro moderno na Suécia com sua peça de estreia, Mestre Olof, de 1872. Seu período criativo mais importante deu-se no final da década de 1880, após ele atravessar uma série de crises pessoais, período em que concebeu suas obras-primas, O pai, Senhorita Júlia e Os credores, que retratam conflitos amorosos. Os trabalhos de Strindberg, extremamente renovadores da linguagem teatral, mesclam uma linguagem naturalista com a imersão na subjetividade das personagens, obras consideradas precursoras do teatro expressionista. No final da vida, após um colapso nervoso, Strindberg iniciou uma fase que se aproxima do simbolismo, com criando peças como Sonho e Dança da morte.

Veja aqui a programação completa da mostra, que será apresentada em diferentes Sescs de São Paulo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Octávio Gelino e o cinema militante da década de 1960

O cineasta e pesquisador argentino Octávio Gelino morreu na última segunda feira. Diretor da obra-prima ‘A hora dos fornos’, seu maior legado foi a formação de uma vanguarda cinematográfica militante no final da década de 1960

Passou praticamente em branco entre os jornais da imprensa burguesa a notícia da morte do importante cineasta argentino Octávio Gelino, que, ao lado de Fernando Solanas, concebeu o documentário A hora dos fornos, uma das obras-primas do cinema político latino-americano e mundial.

Gelino estava com 77 anos e faleceu na última segunda-feira (1/10) em Buenos Aires, vítima de um câncer.

Nascido em 1935, na Espanha, a família de
Gelino emigrou para a Argentina na década de 1950. Após o golpe militar em 1966, Octávio Gelino ao lado de Fernando Solanas se envolveram nas filmagens clandestinas de um longo documentário que viria a se tornar o filme La hora de los hornos (no Brasil, A hora dos fornos).

O longa-metragem, que defendia a luta armada contra das ditaduras militares latino-americanas, foi exibido pela primeira vez em 1968, no Festival de Pesaro, na Itália, e obteve uma enorme repercussão em um momento em que a população de diversos países se levantava contra a ofensiva direitista do imperialismo. Nos Estados Unidos as mobilizações se deram contra a Guerra do Vietnã; na Europa, em diferentes países, como a Itália e Alemanha Ocidental, grupos revolucionários surgiram em luta contra os governos de direita. Na América Latina, foi um momento também de intensa atividade política contra as ditaduras militares. Nesse sentido, A hora dos fornos surgia como um manifesto contundente em defesa da luta anti-imperialista no mundo, uma expressão intelectual importante daquele enorme movimento político internacional.

Juntamente com o documentário, os cineastas lançaram na ocasião o Manifesto por um terceiro cinema, que se tornou extremamente popular, se posicionando contra o cinema comercial e afirmando a necessidade de uma posição ativa de luta contra o imperialismo. No texto eles afirmavam: “Toda a tentativa de contestação, mesmo violenta, que não sirva para mobilizar, agitar, politizar de qualquer maneira as camadas do povo, para armá-las racional e sensivelmente para a luta, longe de incomodar o sistema é por este aceito com indiferença, chegando, por vezes, a convir-lhe. A virulência, o não-conformismo, a simples revolta, a insatisfação, são produtos que se adéquam ao mercado de compra e venda capitalista, são objetos de consumo”.

Dito isso, eles elaboravam uma tese sobre a forma como o cinema era controlado pelo imperialismo através de modelos formais: “O modelo da obra de arte perfeita, do filme perfeito, executado segundo as regras impostas pela cultura burguesa, pelos seus teóricos e críticos, serviu, nos países dependentes, para inibir o cineasta, sobretudo quando ele quis adaptar modelos idênticos a uma realidade que não lhe oferecia nem a cultura, nem a técnica, nem os elementos mais sumários para aí chegar. A cultura da metrópole guardava os segredos milenários que tinham dado origem aos seus modelos. A transposição destes para a realidade neocolonial revelou-se um mecanismo de alienação, uma vez que o artista do país dependente não podia assimilar, em alguns anos, os segredos de uma cultura e de uma sociedade elaboradas durante séculos, através de circunstâncias históricas completamente diferentes”.

Depois de analisarem o que seria o primeiro cinema, que seguia os modelos de Hollywood, e o segundo cinema, ligado ao movimento de ruptura do cinema autoral; eles teorizam sobre o terceiro cinema, que seria o cinema militante: “O Terceiro Cinema (não confundir com o cinema do Terceiro Mundo) é o cinema de agitação política. É o cinema militante de luta anticapitalista e anti-imperialista. Corresponde ao período histórico da descolonização e da luta armada contra o imperialismo. Será um cinema completamente liberto dos modelos estéticos de Hollywood e das vanguardas artísticas burguesas, a maior parte das vezes exibido em circuitos paralelos ou mesmo clandestinos. É um cinema sem normas estéticas ou técnicas, em vias de formação não só nos países da América Latina, da África e da Ásia, mas também nos países europeus, em que os cineastas revolucionários e o movimento popular organizado lutam pela transformação da sociedade e pela construção do socialismo.

Juntamente com o manifesto e A hora dos fornos, que era o exemplo prático daquelas ideias, Getino e Solanas fundaram um grupo internacional de cinema militante, o Grupo Cine Liberação, cuja proposta era criar um movimento que passasse por fora dos circuitos tradicionais do cinema comercial, amparando-se nos sindicatos, universidades, associações de bairro e organizações próprias do movimento operário e popular para a veiculação das obras.

A hora dos fornos
, como se pode imaginar, foi criado de uma forma totalmente independente, com baixíssimo custo de produção e uma equipe reduzida, que às vezes se resumia apenas a Getino e Solana, portando apenas uma câmera e um gravador.

Em 1969, em parceria com outros realizadores, Getino produziu outro documentário militante, Los caminos de la liberación.

Getino era adepto do peronismo, movimento nacionalista burguês de orientação democrática, e foi autor, nos momentos finais da ditadura, de dois documentários em defesa de Péron. Eram eles Perón: La revolución justicialista e Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder, ambos lançados em 1971.

Quando há a reabertura e Perón ascende à presidência, Getino ingressa também no governo, nomeado ao posto de chefe da censura cinematográfica. Uma das decisões dele foi liberar todos os filmes anteriormente proibidos pela ditadura.

Com a derrubada do governo peronista em 1973, com o novo golpe militar, Getino parte para o exílio. Vive no Peru e posteriormente no México. Nesses anos ele redireciona o sentido de sua atividade e se volta à pesquisa das condições econômicas e sociais do cinema latino-americano.

Com a queda da ditadura argentina, Getino retorna ao país, onde assume a direção do Instituto Nacional de Cinematografia, participando de filmes e publicando livros teóricos sobre temas técnicos de cinema, ligados a problemas econômicos e às novas tecnologias.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ciclo de documentários destaca a crise política brasileira no século XX

Os documentários acompanham a história nacional em suas sucessivas crises a partir da biografia de presidentes e líderes políticos de cada período, tais como Luís Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Lula, entre outros
O ex-presidente brasileiro João Goulart.
Começa hoje em São Paulo, na Cinemateca Brasileira, um ciclo de documentários políticos, que narram acontecimentos representativos da história brasileira do século XX. A mostra inclui ainda documentários internacionais e obras ficcionais.
O que quase todos eles têm em comum é girar em torno da biografia de determinadas personalidades políticas, tais como Luís Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Lula.
Sobre questões internacionais há o documentário Videogramas de uma revolução; destacando a revolução na Romênia em 1989; outra produção, Viva Zapatero! narra um famoso caso de censura ocorrido na Itália durante o governo Berlusconi, no início da década de 2000; e um filme ficcional, A comédia do poder, de Claude Chabrol baseado em um escândalo de corrupção recente na França.
Obviamente que os documentários apresentam a história de um ponto de vista burguês, e seu valor reside nos materiais raros de arquivo que apresentam, a partir de imagens da época e o relato dos envolvidos.
Getúlio Vargas, da cineasta Ana Carolina, narra a trajetória política de Vargas, desde sua participação na Revolução de 1930, passando pelo Estado Novo, e seu segundo governo, de orientação nacionalista que culmina com seu suicídio. A produção narra os fatos a partir de fotografias raras e imagens de telejornais da época.
Seguem um formato similar os documentários Os anos JK: uma trajetória política, do documentarista Silvio Tendler, e Jango, do mesmo diretor. Ambos narram a crise política brasileira das décadas de 1950 e 1960 a partir da biografia dos presidentes.
Céu aberto, de João Batista de Andrade, tem como tema a crise final da ditadura militar, com o movimento pelas Diretas Já. Os fatos são narrados a partir do ponto de vista dos políticos burgueses que tomaram parte no movimento, como Fernando Henrique Cardoso e Ulysses Guimarães. O filme apresenta também depoimentos de figuras do próprio regime militar, como o General Newton Cruz, que liderou a violenta repressão da ditadura contra o movimento das Diretas em Brasília.
Sobre o momento final da ditadura há ainda o documentário Linha de montagem, que retrata o movimento grevista de São Bernardo do Campo, mostrando a atuação da burocracia lulista à frente do movimento para acabar com as greves.
Sobre Lula há ainda o documentário Entreatos, de João Moreira Salles, mostrando o PT vinte anos depois de Linha de montagem, já perfeitamente adaptado à política burguesa. O filme mostra os bastidores da campanha presidencial que levou Lula ao poder em 2002.
Além dos documentários, outras produções ficcionais analisam também determinadas crises da política nacional.
O filme O desafio, dirigido por Paulo César Saraceni, se propõe a apresentar a desmoralização de determinados setores da pequena burguesia de esquerda diante do golpe militar em 1964, e a onda repressiva que se seguiu a ele.
Outra produção presente na mostra é Terra em transe, de Glauber Rocha, que apresenta uma alegoria política da crise brasileira na década de 1960, a partir das disputas de poder entre diferentes personagens que vivem na cidade imaginária de Eldorado.
Há ainda na mostra o ficcional Lula, filho do Brasil, de Fabio Barreto, feito por encomenda do PT para exaltar o ex-presidente. Obra presente na mostra pela óbvia vinculação política da Cinemateca ao atual governo Dilma.
Essa mostra, Ciclo lideranças políticas e cinema, que tem a abertura hoje, estará em exibição até o dia 18 de outubro. Veja abaixo a programação completa.

Programação:

3/10 – Quarta-feira
Sala Cinemateca BNDES
18h30 Getúlio Vargas
20h30 Apresentação de Vera Chaia e Telmo Estevinho | Vocação do Poder

4/10 - Quinta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
19h30 O velho

5/10 - Sexta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
19h00 Os anos JK
21h00 Viva Zapatero!

6/10 - Sábado
Sala Cinemateca Petrobras
16h00 O desafio
19h00 Videogramas de uma revolução

7/10 - Domingo
Sala Cinemateca Petrobras
16h30 A comédia do poder
20h30 Entreatos

10/10 - Quarta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
20h30 Céu aberto

11/10 - Quinta-feira
Sala Cinemateca BNDES
19h30 Entreatos

12/10 - Sexta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
16h00 Vocação do poder

13/10 - Sábado
Sala Cinemateca Petrobras
16h00 Jango
19h00 Terra em transe

14/10 - Domingo
Sala Cinemateca Petrobras
16h30 Linha de montagem
18h30 Lula, o filho do Brasil
21h00 Os Anos JK

17/10 - Quarta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
19h00 Getúlio Vargas
20h30 Lula, o filho do Brasil

18/10 - Quinta-feira
Sala Cinemateca Petrobras
20h00 Linha de montagem