terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Morre Etta James, uma das grandes vozes da música negra norte-americana

Etta James em 2010.
A atividade musical de Etta James acompanhou a do movimento político dos negros em seu país, crescendo com ele e entrando em crise também no período em que o movimento se dispersava
Morreu na última sexta-feira a cantora soul Etta James, uma das mais expressivas vozes da música negra contemporânea. Ela destacou-se em diferentes gêneros, desde o jazz e o blues, passando pelo rhythm’n’blues, o funk e o soul.

A cantora estava já com 73 anos e há muitos anos seu estado de saúde era delicado. Há pelo menos um ano Etta James lutava contra uma leucemia e foi internada diversas vezes ao longo do ano com infecções sanguíneas e problemas renais. No último mês, em uma declaração à imprensa, seu médico já havia afirmado que a cantora estava em um estágio terminal de sua doença. Ela morreu ha uma semana de completar 74 anos.

Natural de Los Angeles, Jamesetta Hawkins nasceu em 1938. Sua inclinação para a música despontou já quando ela tinha cinco anos. Aos 12 anos ela mudou-se com a família para a Califórnia e aos 14, formou seu primeiro grupo, o trio The Creolettes (algo como “as negretes” em tradução livre). O grupo logo chama a atenção de Johnny Otis, o mais destacado músico branco de blues e rhythm’n’blues no período. Otis era também empresário e se interessou pela música do grupo. Foi ele quem sugeriu à cantora a inversão de seu nome para “Etta James”, bem como a mudança mais conservadora do nome do grupo, de The Creolettes para The Peaches (“os pêssegos”, em tradução livre). Foi ao lado dele que Etta James gravou suas primeiras canções. Algumas de suas primeiras canções de destaque foram Work With Me, Annie e Dance with Me, Henry.

Uma experiência marcante para Etta James da proscrição do negro também na indústria musical norte-americana foi a ocasião em que uma cantora branca, Georgia Gibbs, regravou a composição de Etta, Dance with Me, Henry, com o título The Wallflower, e a música tornou-se uma das mais populares dos Estados Unidos em 1955, enquanto que a gravação de Etta permanecia completamente desconhecida.

Capa do primeiro álbum da cantora, de 1960.
Foi procurando burlar o racismo que a cantora seguiu o conselho de seu empresário e alisou e tingiu seu cabelo de loiro. Ela aparecia ainda embranquecida na capa de seus discos.
A atividade musical da cantora coincidiu, foi estimulada e impulsionada pelo crescimento do movimento negro desde o final da década de 1950. Ela tornou-se uma das mais populares cantoras negras dos Estados Unidos nesses anos.

Apesar de ter gravado alguns singles e ter diversas músicas suas tocando nas rádios, seu álbum de estréia veio apenas em 1960, o disco At Last!, que chamava a atenção por sua mistura de estilos negros, como o blues, o doo-wop e o rhythm and blues. O álbum incluía já duas grandes canções de Etta James, I Just Want to Make Love to You e A Sunday Kind of Love.
Poucos meses mais tarde a cantora lançou aquela que viria a ser sua canção mais popular, o single At Last, que chegou ao número dois nas paradas de sucesso, um fato extraordinário levando-se em conta a política de segregação racial em vigor, que cuidadosamente encobria os cantores negros com “produtos brancos” similares.

Esse sucesso da música de Etta James não era, porém, um fato casual. O crescimento e a radicalização do movimento negro ao longo do período foi o principal responsável pela presença também cada vez maior do negro nos meios musicais “oficiais”, ou seja, os que eram mais diretamente controlados pela burguesia, as rádios, a televisão, os grandes shows.

A cantora ao lado do boxeado Muhammad Ali,
A música negra foi, muito provavelmente, a expressão cultural mais ampla e característica do movimento político dos negros pelos seus direitos democráticos entre as décadas de 1950-60-70.
Não apenas surgiram novos expoentes negros na música popular, como Etta James – que atuavam ao lado de artistas mais velhos como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald ou Nat King Cole – mas também foi a época de nascimento de novos gêneros musicais, criados, sobretudo, pela iniciativa dos negros, como o rock’n’roll, o rhyth’n’blues e o soul. No terreno do jazz, surgia também o hard bop e o free jazz, entre outros, produto também da radicalização da consciência dos negros no período.

Etta James na dácada de 1970.
Foram manifestações que modificaram substancialmente a cultura popular do segundo pós-guerra, com uma influência maior ou menor em praticamente todos os países do globo. O movimento negro norte-americano teve um papel capital nesse fenômeno.

Pertencem também à geração de Etta James outras importantes cantoras negras como Nina Simone – cuja canção Mississippi Goddamn tornou-se um dos grandes hinos do movimento pelos Direitos Civis –, ou a mais jovem Aretha Franklin, uma das maiores vozes da música norte-americana.

Um dado que revela bem a importância que a música negra passava a adquirir nessa época é a fundação da Motown em 1959, a mais importante gravadora especializada em música negra dos Estados Unidos ao longo de mais de duas décadas.

A importância de Etta James está no fato dela ter se conseguido transpor essa barreira racial e passar a ser vista entre um setor bastante amplo da população como uma das grandes cantoras de seu tempo no País. Etta James foi uma das responsáveis por abrir caminho para as gerações mais jovens de músicos negros.

A cantora na década de 1980.
Na década de 1960 ela abandona o cabelo loiro alisado e assume uma nova imagem, de afirmação de sua “negritude”. Essa mudança na “imagem pública” da cantora é um espelho da pressão que o movimento negro exercia sobre a burguesia norte-americana e a mentalidade conservadora em geral.

Sua música tem grandes momentos entre 1960 e 1963, gravando canções importantes como Something's Got a Hold on Me, Stop the Wedding e Pushover. O maior momento de sua música foi provavelmente em 1967, quando lança a gravação Tell Mama, hoje tida como um dos clássicos do gênero.

Na década de 1970, Etta James procura novos caminhos e grava em diferentes gêneros como o funk e o rock. Ela chega a fazer nesses anos uma parceria com os Rolling Stones e Janis Joplin, que antes já havia gravado uma versão de Tell Mama. Apesar de ser uma época criativamente importante, foi também permeada por uma forte crise pessoal da cantora. Ela tornou-se viciada em heroína e passou anos longe dos palcos, gravando apenas eventualmente. Depois de conseguir se livrar do vício, em sua difícil recuperação Etta James chegou a pesar quase duzentos quilos, e foi apenas na década de 1990 que ela conseguiu retomar novamente sua atividade musical, que manteve enquanto pôde. Seu último show ocorreu no ano passado. Ela lançou em novembro de 2011 seu último álbum, The Dreamer.

Leia outras matérias de Cultura diretamente no portal Causa Operária Online, clique aqui.  
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário