terça-feira, 29 de novembro de 2011

Alexei Savrasov, o crepúsculo do movimento paisagista russo

8 de outubro de 2011 

Hoje se completa o aniversário do pintor, um dos membros do grupo Peredvizhniki, de pintores populistas, que rompia com a arte acadêmica na Rússia

O Retorno das Gralhas, obra-prima do pintor.
Savrasov nasceu em 1830 e era filho de comerciantes que viviam com certa estabilidade econômica. Ele começou a desenhar muito cedo e aos 8 anos estava já matriculado na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Rapidamente as paisagens à maneira romântica tornaram-se a sua especialidade.

Entre as décadas de 1840 e 50, Savrasov desenvolveu-se sempre inserido nos círculos oficiais da arte russa, apresentando suas obras nos salões oficiais e trabalhando como professor na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Ele foi sempre próximo de alguns dos principais artistas de seu tempo, particularmente amigo do realista Vasily Perov, com quem muitas vezes saía para pintar no campo.


O estilo pessoal de Savrasov, paisagista por excelência, foi o chamado paisagismo poético, uma das correntes da pintura romântica europeia. Este movimento prezava a pintura a partir da paisagem natural, mas nunca reproduzindo-a tal qual se apresentava. Eles, ao contrário, procuravam idealizá-la e ressaltar o que havia de belo e poético na cena. Era uma forma de pintura altamente subjetiva, baseada em sugestões de cores, luzes e movimentos nas paisagens, extraindo delas seus elementos emocionalmente sugestivos.


Ao longo da década de 1960 há uma mudança de rumos na vida e na obra do artista. Com a radicalização política que se desenvolve ao longo do período, os próprios artistas passam a expressar uma tendência de ruptura com o governo. Esta cisão se dá exatamente no ponto nevrálgico do controle estatal na pintura. Todos os anos um júri imperial aprovava quais as obras artisticamente se enquadravam nas exigências estéticas oficiais. Era uma instituição existente em toda a Europa e apenas nesta época começa a ser contestada. Na França, Courbet inicia esta ruptura ainda na década de 1950, mas a atitude somente se generaliza a partir de 1870, quando o grupo impressionista rompe com os Salões e passa a expor paralelamente.


É também na década de 1870 que na Rússia se dá este grito de independência dos pintores diante da tutela do governo. Este movimento radical surge na forma de um grupo de arte, o Peredvizhniki.

O grupo era encabeçado por jovens pintores realistas como Vasily Perov, Ivan Kramskoi, Grigoriy Myasoyedov e Nikolai Ge. Por de trás desta iniciativa, estavam os ideais socialistas destes pintores, influenciados pelas ideias de populistas como o crítico de arte Vissarion Belinski e do militante Nikolai Tchernichévski.

Os ideais morais e políticos de Tchernichévski foram transformados na estética fundamental dos principais membros do grupo na maioria ex-alunos recém saídos da Academia Imperial de Belas Artes.


Mais velho que os demais artistas, Savrasov, porém, acompanhou este radicalismo, unindo-se por um breve período ao grupo.


O ponto alto de sua pintura data justamente deste período. Sua obra-prima, executada em 1871, foi tela imaginativa O Retorno das Gralhas. Ele apresenta na obra um episódio trivial, a migração das gralhas de volta à Rússia. Uma tela executada com simplicidade, leveza, mas de grande força emocional. Exatamente no ponto de transição entre o inverno e a primavera. Esta obra em particular rendeu grande popularidade ao artista nos principais círculos intelectuais de São Petersburgo e Moscou.


Era uma época porém, em que a pintura social, reflexo da ideologia das gerações mais jovens, contratavam vivamente com aquele seu romantismo paisagístico, emocional e subjetivo. Havia um abismo entre estas duas tendências, e este problema foi o ponto de partida para a crise pessoal de Savrasov.


O estopim desta crise se deu em finais de1871, após a morte de sua filha. Os diversos revezes de sua vida pessoal a partir daí, acabariam por afundá-lo na mais completa amargura e desilusão. Ele vai gradualmente deixando de lado a pintura e cai no alcoolismo. Inúmeras foram as tentativas de seus conhecidos de recuperá-lo, mas nenhum resultado foi obtido.


Nos últimos anos de sua vida, Alexei Savrasov vivia já na miséria, morando em abrigos públicos sem nunca se fixar em lugar algum. Ele viria a morrer em 1897, totalmente marginalizado e esquecido. No seu enterro, conta-se que compareceram apenas duas pessoas, seus amigos pessoais, o porteiro da Escola de Pintura de Moscou e o galerista russo Pavel Tretyakov.

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